Sócrates em Sonetos

1. A FAMÍLIA E AS PRIMEIRAS LUTAS

 

 

 Sócrates nasce em 469 a.C. em Atenas

 Em um lar deveras modesto e limitado,

 Mas sua rara filosofia entra em cena

 E o modesto se torna muito inusitado,

 

 Sócrates foi pensador a vida inteira

 Ele era filho do escultor Sofronisco,

 Já a sua mãe era a Fenarete parteira

 E casa-se com Xantipa após namorisco,

 

 Luta em Delion e Anfipolis com vigor

 Luta em Potidéa como raro batalhador

 E salva Alcebíades de morte pungente,

 

 A filosofia de Anaxágoras tem ilação

 Que prega a sabedoria da coordenação

 E ela influencia Sócrates plenamente.

2. A MISSÃO DE SÓCRATES

 

 

 O oráculo de Delfos diz que Sócrates,

 Em revelações, é o mais sábio humano,

 Mas ele pensa que elas são só cortes

 De uma missão que tem um nobre plano,

  

 A missão era trazer homens à virtude,

 E ele era assistido por espírito bom,

 Desde as suas inconscientes atitudes

 E ele ainda o inspirava em seus dons,

 

 Não reconhecendo em si mesmo o saber,

 Interrogava as pessoas para entender

 Quanta lógica as pessoas já possuíam;

 

 Indagou quanto ao que deveriam saber,

 Assim, ele terminou por si convencer

 Até de que não sabiam que não sabiam.

3. A IRONIA PERANTE OS FALSOS VALORES

 

 

 Sócrates confundia, com a sua ironia,

 Diferentes e vaidosos interlocutores,

 Mostrava toda a ignorância que havia

 E criticava os seus arcaicos valores,

 

 Sócrates ainda criticou a democracia

 Foi contra a condenação dos vencidos,

 Indispôs-se com a velha aristocracia

 E com seu tino conservador conhecido,

 

 Foi tido como subversivo por opinião

 E por não aceitar os deuses da nação,

 E pela juventude não ser mais serena,

 

 Foi condenado à sentença ignominiosa

 Tendo que morrer com sicuta venenosa

 Em 399 a.C. na rude prisão de Atenas.
 

4. SÓCRATES E O AMOR À SABEDORIA

 

 Sócrates disse aos atenienses um dia:

 Eu lhes tenho alto apreço e gratidão,

 Porém obedecerei ao Deus de Harmonia,

 Não deixarei de filosofar pela razão,

 

 O pensador disse, no fim de sua vida:

 Quem ocupa um posto que seja o norte,

 Deve permanecer com firmeza decidida

 Sem levar em conta nem mesmo a morte,

 

 Sócrates fala de sua índole oportuna:

 Não valorizar a matéria ou a fortuna

 E sim as virtudes humanas sublimadas,

 

 Tornar a alma um ser íntimo incrível,

 Tornando-a tão digna quanto possível

 Por intermédio de escolhas acertadas.

5. A IRONIA, A MAIÊUTICA E A INDUÇÃO

 

  Sócrates fez do diálogo interpessoal

 O método primordial de sua filosofia,

 E por crença órfico-pitagórica ideal

 Fala que a verdade é íntima harmonia,

 

 O seu diálogo idealiza três momentos:

 Ironia, maiêutica e depois a indução,

 A ironia trata de levar o pensamento

 A se conscientizar da falta de razão,

 

 A maiêutica faz assumir a ignorância

 Para que, o que seria de importância,

 Possa vir à luz em um estado latente,

 

 A indução consiste em se identificar

 O universal que se tem no particular,

 Como o belo ideal dos seres viventes.

6. A ANTROPOLOGIA DE SÓCRATES

 

 Desinteressando-se pelo valor físico

 Sócrates mostra interesse pela moral,

 Sua antropologia tem tino específico

 Para só conduzir ao bem e a um ideal,

 

 Virtude pressupõe assimilação do bem,

 Razão pela qual é concebível ensinar,

 As virtudes revelam sabedoria também

 E a alma supera o corpo em um limiar,

 

 Um domínio de si afasta desejo ímpio,

 Temperança leva a alma ao equilíbrio,

 E, para um bem, basta ser consciente,

 

 Todas as pessoas buscam a felicidade,

 O vício não passa de irracionalidade,

 E ninguém pratica um mal lucidamente.
 

7. O ORÁCULO DE DELFOS E SÓCRATES

 

 

 O dom do oráculo de Delfos atemporal

 Era: conhece-te a ti mesmo, como lei,

 O oráculo elegeu Sócrates como ideal

 Porém ele disse: só sei que nada sei,

 

 Falando sobre a justiça ou a coragem

 Sócrates só perguntava: o que é isto?

 Induzindo todos a uma nova abordagem

 Perante um questionamento imprevisto;

 

 Esparta agrediu Atenas nesta ocasião,

 Como explicar a moral nesta situação?

 E até a juventude optava pela ironia,

 

 Os conservadores estavam preocupados

 Em reavivar o seu politeísmo abalado,

 Mas para Sócrates era velha anomalia.

8. A ASSEMBLÉIA DOS 500 EM ATENAS

 

 

 Sócrates era monoteísta por simpatia,

 E desta forma recebeu sua condenação,

 Por descartar os deuses da mitologia

 Levando jovens a desviar sua devoção,

 

 A assembléia dos 500 fez sua votação

 E por 280 a 220 ele se viu condenado,

 A morte era a pena para sua acusação

 E, pela sicuta, pereceria envenenado,

 

 Sua sentença demorou a ser executada

 As propostas de fuga foram recusadas

 E ele permaneceu ali revelando calma,

 

 Enquanto ele ficou na arcaica prisão

 O assunto principal de sua discussão

 Era a força na sobrevivência da alma.

9. A ÚLTIMA IRONIA DE SÓCRATES

 

 

 Sócrates profere as últimas palavras

 Enaltecendo sua ironia tão conhecida,

 Enquanto o tempo na prisão se agrava

 Sua inusitada coerência se consolida;

 

 Era condenado por rejeitar os deuses

 Mas a pena se torna razão descoberta,

 E se fossem reais, ao menos às vezes,

 Esculápio haveria de honrar a oferta,

 

 Sócrates pede a Críton um sacrifício

 De um galo a Esculápio num artifício

 Para testar o deus dos males da vida,

 

 Se o deus Esculápio fosse verdadeiro

 Haveria de curar seu dano derradeiro,

 Esta última ironia foi sua despedida.
 

10. A ORIENTAÇÃO DO COMPORTAMENTO HUMANO

 

 

 Sócrates é um dos maiores pensadores

 Que distinguiu a filosofia ocidental,

 O belo, o bom e o justo eram valores

 Que magnetizavam sua atenção pessoal,

 

 O socratismo simboliza uma revolução

 Que muda a reflexão do mundo natural

 Para o mundo onde a humana percepção

 Passa a ser o mais forte referencial,

 

 Sócrates desenvolveu nobre convicção

 Em relação à força da boa orientação

 Para se elevar o comportamento usual,

  

 Orientando-se os homens corretamente

 Eles se comportarão inteligentemente

 E a correção do caminho será gradual.

Sócrates

Fédon

11. CHEGADA DE FÉDON EM FLIONTE NO PELOPONESO

 

 Equécrates junto a Eurito de Tarento,

 O discípulo de Filolau no Peloponeso,

 Um discípulo de Pitágoras a contento,

 Recebeu Fédon como visitante de peso,

 

 E Equécrates disse ao Fédon viajante:

 Aqui, em Flionte, já faz muito tempo

 Que não temos notícias de informante

 Que venha de Atenas como novo alento,

 

 Conte-nos detalhes de sua condenação

 E porque ficou tanto tempo na prisão

 O Sócrates de filosofia tão admirada,

 

 Fédon! Presenciaste o drama pungente,

 Todos nós vamos te ouvir atentamente,

 Seja exato e não te esqueças de nada.
 

12. MOTIVOS DA LONGA PRISÃO DE

SÓCRATES

 

 Fédon dá, em Flionte, sua explicação:

 A cidade fez, ao Apolo, uma promessa

 De enviar, a Delos, uma peregrinação

 E todo ano vão jovens noutra remessa,

 

 Uma lei do país traz esta afirmativa:

 Enquanto durar a procissão diligente

 Nenhuma execução terá sua iniciativa

 Até que a mesma nau aporte novamente,

 

 Todavia quando os ventos em anomalia

 Promovem uma árdua e longa travessia

 A peregrinação permanece com devoção,

 

 No início, coroou-se a popa do navio

 E o julgamento foi após este poderio,

 Por isto ele demorou tanto na prisão.

 

13. PARECER DE FÉDON SOBRE SÓCRATES

 

 

 Fédon disse: enquanto estive ao lado

 Deste incrível filósofo tão original,

 Eu analisei conceitos tão inusitados

 Quanto o raciocínio notava seu ideal,

 

 Minha emoção na morte deste pensador

 Ao qual me achava unido pela amizade,

 Não identificava compaixão e nem dor,

 Pois via que ele refletia felicidade,

 

 Feliz, tanto no modo de se comportar,

 Quanto na maneira calma de conversar,

 Tal era a visível nobreza em seu fim,

  

 De tal forma ele me dava a impressão

 De que se dirigia para a nova região

 Como se lhe coubesse um nobre festim.

14. ALEGRIA COEXISTINDO COM A DOR

 

 

 Por tudo isto eu não sentia tristeza,

 Porém também não sentia a felicidade

 Dos tempos da filosofia de sutilezas,

 Embora no diálogo houvesse qualidade,

 

 A verdade é que havia nas impressões

 Uma sensação bastante desconcertante,

 Uma mistura de elevadas idealizações

 Em oposto vínculo com dor lancinante,

 

 Nós estávamos em momento de desgaste

 Ora rindo, ora chorando em contraste,

 Em comportamento de intenso desvario,

 

 Apolodoro mais do que qualquer outro,

 Suas emoções pareciam em desencontro,

 Pois conheces qual seja o seu feitio.
 

15.  PENSADORES PRESENTES NA PRISÃO

 

 

 Equécrates indagou: quais pensadores

 Estiveram contigo, Fédon, na ocasião?

 Fédon: Apolodoro com os seus valores

 E ainda outros de Falero, sua região,

 

 Os outros de Falero eram: Antístenes,

 Critobulo e seu pai também presentes,

 Hermógenes, Ésquines mais o Epígenes,

 De Peânia, Ctesipo estava juntamente,

 

 Menexeno e pessoas de sua localidade,

 E Platão ausentou-se por enfermidade.

 E havia estrangeiros nesta pungência?

 

 Sim, Símias, Cebes e Fedondes também,

 O Euclides e Terpsião e mais ninguém,

 Aristipo e Cleômbroto eram ausências.

16.  ENCONTRO DIÁRIO COM SÓCRATES NA PRISÃO

 

 Encontrávamos o Sócrates diariamente,

 O primeiro encontro ao romper do dia

 Era no tribunal que ficava em frente

 À prisão que o detinha em melancolia,

 

 Esperávamos o rude presídio se abrir,

 Porém não era aberto tão rapidamente,

 E quando abria podíamos nos conduzir

 Até onde estava o Sócrates influente,

 

 Chegamos mais cedo no dia derradeiro

 Porque o navio voltou de seu roteiro

 E conseguimos adentrar mais cedo ali,

 

 Mas quando Xantipa nos viu novamente

 Dirigiu-nos palavrórios maledicentes,

 Mas Sócrates pediu para levá-la dali.

17. A RELAÇÃO ENTRE O PRAZER E A DOR

 

 

 Quando Sócrates assentou-se no leito

 Esfregou duramente a perna com a mão,

 E enquanto isso enunciou um conceito:

 Que grande relação há nesta oposição,

 

 Relação inusitada entre prazer e dor,

 E não se identificam simultaneamente,

 Todavia basta capturar um como valor

 E o outro será encontrado juntamente,

 

 Nós estaremos sujeitos, quase sempre,

 A encontrar o seu oposto equivalente,

 Corpo duplo e uma só cabeça pensante;

 

 Se Esopo tivesse redigido a respeito,

 Escreveria uma fábula sobre o efeito

 E ela teria um preceito interessante.
 

18. SÓCRATES E O ESCRÚPULO DE RELIGIOSIDADE

 

 

 A divindade quis pôr fim ao conflito

 E amarrou as extremidades juntamente,

 O surgimento de um não fica restrito

 Porque logo vem o oposto equivalente;

 

 Cebes: Sócrates! Puseste em mudanças

 Contos de Esopo para metro em canção,

 E o poeta Eveno me fez esta cobrança

 Querendo saber o motivo da alteração,

 

 Sócrates: Cebes! Conte-lhe a verdade,

 Fiz com o escrúpulo de religiosidade

 E não com a intenção de concorrência,

 

 Fiz ainda em decorrência de um sonho

 Onde as interpretações eu transponho

 Para tentar me ver por transparência.

 

19. REVITALIZAR O DIA A DIA COM MÚSICAS

 

 

 

 Sócrates: várias vezes tive um sonho

 Onde uma voz me disse bem claramente:

 Revitalize o seu dia a dia enfadonho

 E componha novas músicas envolventes,

 

 A tal voz me convidava a desenvolver

 A atividade que tive na vida passada,

 Assim como se excita quem vai correr

 Por meio de uma estimulação adequada,

 

 Embora me convide para fazer melodia

 Haverá melodia maior que a filosofia?

 Esta melodia traz a plena felicidade,

 

 Mas a morte se adia por peregrinação,

 Assim decidi por os versos em canção

 E acatar aquela voz de religiosidade.

20. CONVITE FILOSÓFICO AO POETA EVENO

 

 

 

 Sócrates: julguei que para ser poeta

 Deveria usar mitos e não raciocínios,

 Como não uso mitos de forma concreta

 As rimas de Esopo foram meu fascínio,

 

 Cebes, conte ao Eveno a minha ironia

 Transmite-lhe ainda a minha saudação,

 E que se ele possui amor à sabedoria,

 Deve seguir minhas pegadas com noção,

 

 Eu vou embora hoje mesmo, pelo jeito,

 Pela ordem dos atenienses de direito,

 Então já não disponho de muito tempo,

 

 Símias: Sócrates, que bonito convite,

 Não acredito mesmo que Eveno o evite

 E creio que seguirá o aconselhamento.

21. A MORTE É SERENA, MAS NÃO POR SUICÍDIO

 

 Sócrates perguntou: Eveno é filósofo?

 Símias disse: eu creio que ele é sim,

 O convite vai louvar seus propósitos

 Mas espero que não cultive o seu fim,

 

 Cebes: como salientar que é proibido

 Violência contra si e por outro lado

 Que o filósofo aqui deve ser seguido,

 Se morrerá por um roteiro idealizado?

 

 Sócrates: quê? Não fostes orientados

 Sobre a ação deste gênero de pecados

 Ao viverdes com o Filolau pitagórico?

 

 Sócrates, não tivemos nada bem claro

 Neste tema não tivemos maior preparo,

 E ficou um lapso no conceito teórico.

22. A REJEIÇÃO AO SUICÍDIO - I

 

 

 Cebes: dize-nos, Sócrates, com razão,

 Por que um suicídio não é autorizado?

 Já ouvi Filolau refutar esta decisão,

 Todavia o motivo não me foi ensinado!

 

 Sócrates: vamos avaliar este assunto,

 Talvez eu possa ensinar alguma coisa,

 É mesmo necessário viver neste mundo,

 Usando sempre todas as nossas forças,

 

 A necessidade de viver é inteligível,

 Verdadeiro mesmo quando é preferível

 A morte em relação à vida degenerada,

 

 Todas as vidas pertencem à Divindade,

 E estariam matando-as sem autoridade

 Do dono desta especificidade sagrada!

 23. A REJEIÇÃO AO SUICÍDIO - II

 

 

 Sócrates: o mundo é como rara prisão

 Onde detentos pensam ter a liberdade,

 Planejam os seus sonhos e sua ilusão

 Mas eles se alteram pela adversidade,

 

 Em meio aos distúrbios do sofrimento

 Não se deve libertar-se da limitação,

 Não se deve evadir-se antes do tempo

 E sim quando o Criador der permissão,

 

 Nós estamos sob a égide da Divindade,

 Suicídio e homicídio são leviandades,

 E nenhum deve sair sem a autorização,

 

 O Criador tem os cálculos redentores,

 Não se deve matar os humanos valores

 Para não mudar Seu plano de redenção.
 

24. A REJEIÇÃO AO SUICÍDIO - III

 

 

 Cebes: Sócrates! Acho que é racional

 O teu bom argumento aqui apresentado,

 Mas a coisa toma um feitio paradoxal

 Quando os filósofos são considerados,

 

 Os filósofos com relativa facilidade

 Aceitam morrer sem qualquer protesto,

 Porém se nós pertencemos à divindade

 O filósofo contradiz com o seu gesto,

 

 Assim, não se pode ignorar este fato

 De que justo os homens mais sensatos

 Não se incomodam com a ação da morte,

 

 Sócrates o ouviu com um certo prazer

 E disse: Cebes não quer se convencer

 Sem apresentar óbices de outra sorte.

25. A REJEIÇÃO AO SUICÍDIO - IV

 

 

 Sócrates: eu ficaria bem contrariado

 Se a morte inviabilizasse minha vida,

 Se meu ideal não tivesse me ensinado

 Que depois dela teria nova sobrevida,

 

 Estarei junto de seres sábios e bons

 E de homens que morreram muito antes,

 Daqueles que possuem magníficos dons,

 Cujas virtudes são sempre relevantes,

 

 Assim, pelo que acabou de ser falado

 Não tenho razões para estar irritado

 Já que morte é uma seqüência natural,

 

 Ao contrário, tenho imensa convicção

 De que os bons terão melhor recepção

 Do que os maus lá na vida espiritual.

26. A CONVICÇÃO NO VALOR DO IDEAL

 

 

 Símias: Sócrates! Terás esta coragem

 De guardar para ti estes pensamentos?

 Porque se fizeres esta última viagem

 Levarás este coletivo esclarecimento!

 

 Sócrates: esforçar-me-ei pela defesa,

 Mas antes vejamos o que está havendo,

 Porque o bom Criton dirá com certeza

 O que na prisão agora está ocorrendo,

 

 Criton: o homem que te dará o veneno

 Explica-me que deves conversar menos,

 Aquecendo o corpo dificultará a ação,

 

 Sócrates: que vá às favas em seguida,

 Ele que me dê várias vezes repetidas,

 Mas não vou paralisar a argumentação!
 

27. O IDEAL LIBERTA O HOMEM DO MEDO DA MORTE

 

 

 Sócrates: deixa-me retomar a opinião

 De que o homem deve ter melhor sorte

 Por cultivar filosofia com dedicação,

 E terá melhor aceitação após a morte,

 

 Quando o homem se dedica à filosofia

 No sentido abrangente de sua acepção,

 Ele se prepara para morrer dia a dia

  

 Por isso a morte não causa irritação.

 Símias pôs-se a rir e disse alterado:

 Por Zeus, Sócrates, fico atrapalhado,

 Estou rindo sem nem ter esta vontade,

 

 Se o vulgo ouvisse essas ponderações

 E ao analisar o tema com seus senões,

 Atacaria a filosofia e suas verdades.

28. SÓ ENTENDE QUEM TEM AMOR À SABEDORIA

 

 

 Símias: o vulgo diria, com sua noção,

 Quem estuda filosofia deseja perecer,

 E uma só razão teria a sua conclusão:

 Quem pensa assim merece mesmo morrer,

 

 Sócrates: este vulgo teria sua razão

 Embora não soubesse ser rara verdade,

 Por desconhecer o móvel da concepção,

 Assim, ignoremos esta arbitrariedade,

 

 Sócrates: que é morte em sua opinião?

 Símias: é simplesmente uma separação

 Da alma espiritual e do corpo carnal!

 

 Sócrates: crê que é possível dividir

 Esta boa forma de pensar e de sentir,

 Com quem vê de maneira tão paradoxal?

29. A SOBRIEDADE DO VERDADEIRO FILÓSOFO

 

 

 

 Sócrates: seria viável a um filósofo

 Um vício de comer e beber avidamente?

 Símias: não seria de seus propósitos,

 E, ao contrário, seria moderadamente,

 

 E relativamente aos prazeres do amor?

 Símias: também não quereria excessos!

 E dar ao corpo um aspecto fascinador?

 Símias: não veria nisto real sucesso!

 

 A sua atenção não vê o lado do corpo,

 Mas o espírito que se livra do morto,

 E o espírito passa a ser referencial,

 

 Para o vulgo já não se merece a vida,

 Mas só a vida material fica comedida

 Se o corpo já não representa o ideal.
 

30. LIMITAÇÕES DO CORPO EM RELAÇÃO AO IDEAL

 

 Sócrates: usando a visão e a audição

 Nós não vemos nem ouvimos claramente,

 E o resto do corpo tem menor aptidão

 Então o corpo não é mesmo suficiente,

 

 Quando o espírito procura raciocinar

 O corpo sempre o engana radicalmente,

 Deste modo é mesmo preferível pensar

 Sem os sentimentos muito envolventes,

 

 Pensar com estorvo visual e auditivo

 Com prazer ou em sofrimento aflitivo,

 Desvia-se o foco do pensamento ideal,

 

 Deve-se refletir com o corpo isolado

 Deixando sensações e humores de lado

 Para avaliar o ideal de modo natural.

31. A PERFEIÇÃO DAQUILO QUE É IDEAL

 

 

 Sócrates: a alma do filósofo em ação

 Eleva-se ao ponto mais alto possível,

 Desprezando o corpo e sua associação

 Para alcançar uma percepção incrível,

 

 Consegues pensar o justo em si mesmo?

 Ou o belo em si tendo beleza sem par?

 E o bom em si que não se guia a esmo?

 Não viste nenhum deles com teu olhar!

 

 É porque aprendeste por outra ilação

 Que não tem no corpo a sua motivação

 E sim no dom que a alma tem no ideal,

 

 Para todos os seres com suas proezas,

 A relacionar força, saúde e grandeza,

 Só é compreensível no elo espiritual.

32. O PERIGO DE SE LIGAR MUITO AO CORPO

 

 

 Sócrates: Apenas depois de se soltar

 Do corpo, do ouvido e ainda da visão,

 É que a verdade ideal a se averiguar

 Pode ter real processo de apreciação,

 

 O filósofo fala, em íntima estrutura:

 Talvez exista uma espécie de trajeto

 Que leve o raciocínio, nesta procura,

 Por meio de um caminho bem mais reto,

 

 Enquanto há o corpo com seus valores

 E a alma se misturar em seus humores

 Os erros e ilusões serão costumeiros,

 

 Não somente por confusões suscitadas

 Mas também pelas doenças encontradas

 E fica difícil achar o eu verdadeiro.
 

33. AS PAIXÕES DO CORPO CONFUNDINDO A ALMA

 

 Sócrates: o corpo se enche de amores,

 Temores e imaginações de todo o tipo,

 E muitas bagatelas de falsos valores,

 Por meio dos quais obtemos conflitos,

 

 Nada como um corpo e as suas paixões

 Para gerar o aparecimento de guerras,

 E é pela posse de bens e de quinhões

 Que realmente o ser humano mais erra,

 

 Almejamos juntar os valores de metal

 Até para caprichos do corpo material,

 De quem ainda somos míseros escravos,

 

 Para que sua influência vá se firmar,

 Teremos também preguiça de filosofar

 E neste estado a vida tem seu agravo.

34. O DESTINO DOS AMANTES DA SABEDORIA

 

 

 Sócrates: é impossível um saber puro

 Enquanto perdurar a ligação corporal,

 Ou nunca teremos sabedoria no futuro,

 Ou só a teremos num mundo espiritual,

 

 Estaremos mais próximos da sabedoria

 Quanto mais afastados das sociedades,

 Sem as ligações do corpo em anomalia

 Para não turvar a meta da serenidade,

 

 Depois que nosso corpo estiver morto

 Isolar-nos-emos da demência do corpo

 Para emergirmos para a real harmonia,

 

 Ficaremos unidos aos seres parecidos

 Com o nosso pensar mais desenvolvido,

 E assim viverão amantes da sabedoria.

35. O VERDADEIRO SENTIDO DE LIBERTAÇÃO

 

 

 Sócrates: se temos verdade com noção

 Há esperança para quem vai nesta via,

 Seguindo este caminho de purificação

 Iniciado na vida passada com empatia,

 

 Porém a purificação não é justamente

 Apartar, o possível, a alma do corpo,

 Para que ela o evite quotidianamente

 Até que esteja confirmadamente morto?

 

 A alma prefere um corpo sem suportes

 E não é este o nexo da palavra morte,

 Quando acontece a completa separação?

 

 Os que almejam esta augusta harmonia

 Não são os que vivenciam a filosofia?

 Assim a morte já não causa irritação!

 

36. A EVOLUÇÃO PARA O IDEAL DE PUREZA

 

 

 Sócrates: assim, causaria estranheza

 Se homem que lutasse por toda a vida

 Para se aproximar do ideal de pureza

 Se irritasse com a morte já definida,

 

 Todos os que já cultivam a filosofia,

 Por influência de esotéricos valores,

 Já querem este raro tipo de harmonia,

 Para leigos seria motivo de terrores,

 

 Seria como supra-sumo de contradição

 Se sentissem um corpo em forte união

 E ainda desejassem o seu afastamento,

 

 Este afastamento simbolizaria um bem

 Se fossem com entusiasmo para o além,

 Mas ainda não têm este discernimento.

37. VIRTUDES PREPARAM FILÓSOFO PARA A MORTE

 

 Sócrates: as mulheres e seus maridos

 Não desejam ir para a região do além,

 Depois de seus amores terem perecido,

 Porém filósofos fazem isto muito bem,

 

 Eles são homens que amam a sabedoria

 E sabem que vão encontrá-la no Hades,

 Então eles disciplinam seu dia a dia,

 E até abrem mão de suas necessidades,

 

 Se alguém se irrita na hora da morte

 É porque o corpo ainda é seu suporte

 E a sabedoria ainda não é prioridade,

 

 O filósofo já cultiva uma temperança

 Que desenvolve prudência e esperança

 E a hora da morte vem com serenidade.

38. AS CONTRADIÇÕES DOS NÃO FILÓSOFOS

 

 

 Sócrates: para leigos o dom não vale,

 Pois até têm teorias de se estranhar,

 A morte ainda é um dos grandes males

 E é preciso coragem para a enfrentar,

 

 Temor torna os homens até escabrosos

 E a morte transmuda o modo como agem,

 Sendo medrosos se elevam a corajosos

 Como se a covardia gerasse a coragem,

 

 O rude desregramento gera temperança,

 Para que um corpo viva com segurança,

 Eles até abrem mão de novos prazeres,

 

 Trocam valor por valor e dor por dor,

 Tal como moedas de caráter enganador

 Que doa, ao corpo, ilusórios poderes.
 

39. A SABEDORIA COMO MOEDA DO IDEAL

 

 

 Sócrates: apenas uma moeda tem valor

 E por ela se trocam todos os valores,

 A sabedoria com seu dom esclarecedor,

 Porque, com ela, somos idealizadores,

 

 Com ela compram-se e vendem-se metas,

 Coragem, temperança e novas virtudes,

 Elabora-se até justiça mais concreta

 Pela rara diferenciação das atitudes,

 

 É indiferente na justa transformação

 Que se troquem prazeres da percepção

 Que estimulem apenas o lado corporal,

 

 Sabedoria cultiva a rara consciência,

 Muda, no corpo, valores de aparência

 Para íntimos valores da alma imortal.

 

40. A VERDADEIRA PURIFICAÇÃO PELO IDEAL

 

 

 Sócrates: é viável que até iniciados

 A quem se deve a ação das iniciações

 Tenham seus merecimentos comprovados

 Quando se considerar todos os senões,

 

 Quem não tiver a ação da purificação

 Viverá com almas de graus inferiores,

 E quem tiver o valor da reformulação

 Viverá com almas de graus superiores,

 

 Os primeiros vivem em falsa harmonia

 Apresentando, no corpo, sua sintonia,

 E traduzem números realmente maiores,

 

 Já os últimos se tornam os filósofos

 Que buscam purificar seus propósitos

 E representam números sempre menores.

41.SÓCRATES E A RELAÇÃO DOS CONTRÁRIOS  - I

 

 Sócrates: existe uma relação notória

 De transformação entre os contrários,

 Do feio ao belo ou da crise à glória,

 E milhares de contrários imaginários,

 

 A ação dos contrários tem a dimensão

 Que abrange plantas e também animais,

 Vivos e mortos também têm associação

 Com raras transformações estruturais,

 

 Quando qualquer coisa se torna maior,

 A mesma precisa antes ter sido menor

 E a força dos contrários a viabiliza,

 

 Quando um fraco muda para mais forte

 E o lento passa a ter rápido suporte

 Vê-se que neste dom tudo se dinamiza.

42. SÓCRATES E A RELAÇÃO DOS CONTRÁRIOS - II

 

 

 Sócrates: vê-se a força de conversão

 Dinamizando os contrários vinculados,

 O pior se torna melhor pela inversão

 E o injusto se torna justo reformado,

 

 Entre os contrários há dupla geração

 Uma que caminha de um dos contrários

 Para o seu oposto e, em nova relação,

 Do segundo até o primeiro originário,

 

 Entre menor e maior há o crescimento,

 Também há resfriamento e aquecimento

 E ainda há composição e decomposição,

  

 Todos eles têm oposições semelhantes,

 E eles têm uma necessidade dominante

 De se engendrar para a transformação

43. SÓCRATES E A RELAÇÃO DOS CONTRÁRIOS - III

 

 

 Sócrates: vejamos uma outra oposição:

 Estar dormindo versus estar acordado,

 Um necessita mesmo da outra condição

 Para que também possa ser modificado,

 

 Estar morto é contrário a estar vivo

 E são estados que se unem mutuamente,

 De um vivo surge o morto alternativo

 E do morto surge o vivo inversamente,

 

 Das coisas mortas se formam as vivas

 Reaproveitando a matéria associativa

 a manter o ciclo da vida equilibrado,

  

 dos mortos nascem os vivos novamente

 ampliando o ciclo surpreendentemente,

 e do hades o espírito volta renovado.

44. SÓCRATES E A RELAÇÃO DOS CONTRÁRIOS - IV

 

 

 Sócrates: se a morte fosse realmente

 incapaz de gerar a vida por oposição,

 a natureza seria bastante deficiente

 e um dos opostos não teria renovação,

 

 os vivos não provêm menos dos mortos

 do que os mortos dos vivos novamente,

 e há tanto reestruturação dos corpos

 quanto dos espíritos correspondentes,

 

 se o elo fosse em linha reta somente

 sem formar um contrário inversamente,

 o ciclo pararia e cessaria a geração,

 

 suponhamos que só existisse o dormir

 e que um acordar deixasse de existir,

 o equilíbrio seria somente aberração.

 

45. SÓCRATES E A RELAÇÃO DOS CONTRÁRIOS - V

 

 

 Sócrates: se tudo fosse numa direção

 sem retornar para seu lado contrário,

 tudo terminaria concentrado em união,

 transformando-se num bloco solitário,

 

 em pouco tempo estariam evidenciadas

 as palavras do Anaxágoras filosófico,

 todas as coisas estariam compactadas

 privando a tudo de um novo propósito,

 

 suponhamos que morra tudo que é vivo

 e que nada volte ao estado primitivo,

 ao morrer já não haveria outra sorte,

 

 se vida tivesse outro elo de partida

 com diferenciação da morte combalida,

 mesmo assim tudo acabaria pela morte.

 

46. O APRENDIZADO DAS VIDAS PASSADAS

 

 

 

 Sócrates: o vivo tem origem no morto

 e as almas dos mortos têm existência,

 as boas fazem jus ao melhor conforto,

 as más passam a sofrer em penitência,

 

 Cebes: Sócrates, isto me faz lembrar

 de tua elucubração muito considerada,

 que aprender é simplesmente recordar

 porque foi aprendido em vida passada,

 

 Símias; e como se poderá provar isto?

 Neste momento eu me sinto até omisso,

 porque não me lembro deste argumento!

 

 Cebes: indaga-se sobre valor e ética,

 passa-se para as figuras geométricas,

 todos mostrarão atávico conhecimento.

47. RECORDAÇÕES POR MECANISMO DE ASSOCIAÇÃO

 

 

 Sócrates: para se ter uma recordação

 é preciso ter conhecido o fato antes,

 é possível também fazer a associação

 entre eventos e momentos importantes,

 

 como identificar um homem e uma lira,

 as vestimentas e a música em ligação

 atuam para que o somatório interfira

 na intimidade e no dom da imaginação,

 

 como um cavalo e uma lira desenhados,

 lembram um homem por elos associados,

 e até Símias lembra Cebes pela união,

 

 pode-se recordar por algo pertinente

 e pode ser também por algo diferente,

 mas o principal mecanismo é a ilação.

 

48. O IGUAL A SI MESMO COM PLENITUDE

 

 

 Sócrates: entre um objeto de partida

 E um referencial final de apreciação,

 Uma vasta lacuna pode ser preenchida

 por uma lógica capacidade de dedução,

 

 há um que é igual a si mesmo no além

 não igual a um pedaço de pau e outro,

 não igual a uma pedra e outra também,

 porque ele se distingue no confronto,

 

 igual a si mesmo tem igualdade ideal,

 diferente de valor do mundo material,

 porém igual a si mesmo com plenitude,

 

 mas foram estas igualdades materiais

 que permitiram ver em termos mentais

 o igual a si mesmo com a sua virtude.

49. O IGUAL A SI MESMO COMO PADRÃO

 

 

 Sócrates: o igual em si é o superior

 Referencial cujo parâmetro é o ideal,

 Objetos materiais têm valor inferior

 E traduzem uma representação parcial,

 

 É necessário ter visto anteriormente

 Para se conhecer a natureza do igual,

 E ao se observar objetos pertinentes

 Tem-se a lembrança do transcendental,

 

 Todos os objetos análogos observados

 Almejam o patamar do igual sublimado,

 Pois é um referencial de purificação,

 

 Ao enxergar, escutar, tocar e sentir,

 Percebemos que todos desejam evoluir

 Tendo o igual a si mesmo como padrão.

50. O CONHECIMENTO ANTES DE NASCER

 

 

 Sócrates: após a época do nascimento

 Começamos a fazer o uso dos sentidos,

 Mas antes é preciso ter conhecimento

 Referente ao igual mais desenvolvido,

 

 Assim, já adquirimos antes de nascer

 Não só um conhecimento sobre o igual,

 Mas, como maior e menor vão aparecer,

 Tal como outras metas do plano ideal,

 

 O belo e o bom vistos da mesma forma,

 Justo e piedoso com suas boas normas,

 Ou a realidade de evolução como meta,

 

 As perguntas levantam estas questões,

 As respostas individualizam opiniões,

 Mas a noção antes de nascer é direta.
 

51. A RECUPERAÇÃO DO SABER TRANSCENDENTAL - I

 

 

 Sócrates: os conhecimentos fraternos

 Têm no nascimento o ponto de partida,

 Nascemos com este nobre saber eterno,

 Mantendo-o no curso das nossas vidas,

 

 Depois de se obter este conhecimento,

 Ao nascer fica latente na imaginação,

 Passamos a ter o tom do esquecimento

 

 Contra o qual lutaremos na adaptação,

 Neste perene processo de recuperação,

 Cultivamos os estudos como instrução

 Até alcançarmos uma plena maturidade,

 

 A instrução traz o dom da recordação

 Como íntima reminiscência da atenção

 Para que se edifique a personalidade.

52. A RECUPERAÇÃO DO SABER TRANSCENDENTAL - II

 

 

 Sócrates: Símias, quem sabe de fatos,

 É capaz de colocar este conhecimento

 Na forma de um característico relato

 Que mostre o valor do esclarecimento?

 

 Símias: sim, Sócrates, evidentemente.

 Sócrates: crês que alguém seja capaz

 De nos esclarecer significativamente

 Estes itens citados e de modo eficaz?

 

 Símias: eu acho que depois de amanhã

 Ninguém mais apresentará um real afã

 Para nos ensinar esse esclarecimento.

 

 Sócrates: a alma existia muito antes

 De possuir um corpo humano ambulante,

 Mas nasceu esquecendo o entendimento.

53. AO IDEAL COMO AGENTE MODULADOR

 

 

 

 Sócrates: por existir uma vida ideal

 O elo material passa a ser aceitável,

 Se a vida ideal fosse somente irreal,

 O elo físico também seria improvável,

 

 Pela não existência do primeiro teor,

 Implica na não existência do segundo,

 Pois o valor ideal é mesmo modulador

 De valores materiais que há no mundo,

 

 Os valores que, na vida, são notados

 Provêm de valores ideais purificados,

 Sendo belo, bom e justo em si mesmos,

 

 Se não existisse um mundo espiritual

 E, mesmo assim, existisse o material,

 Tudo na vida se desenvolveria a esmo.
 

54. DÚVIDAS COM RELAÇÃO AO FALECIMENTO

 

 

 Símias: há almas antes do nascimento,

 Mas após a morte continuam a existir?

 Quando o corpo tem o seu falecimento

 A alma ativa também pode se destruir!

 

 Cebes: a alma pode ter outra geração

 Antes de se unir para viver no corpo,

 Mas poderia enfrentar sua destruição

 Assim que o corpo já estivesse morto!

 

 Sócrates: já foi deveras demonstrado

 O vivo nasce do morto desestruturado

 Como bem já se admitiu anteriormente,

 

 Símias e Cebes, estais sentindo medo?

 Buscando se a alma tem algum segredo

 Para quando a morte ferir fatalmente?

55. EXORCISMOS PARA SE LIBERTAR A IMAGINAÇÃO

 

 Cebes: Sócrates, somos como poltrões?

 Quem sabe, mas busca nos reconfortar,

 Em nossos íntimos há infantis senões

 E estas hipóteses podem nos assustar,

 

 Firma-te para que nós, como crianças,

 Possamos firmar as nossas convicções,

 Estruturando-nos com a tua confiança

 Para não termos medo de assombrações!

 

 Sócrates: necessitaremos de energias

 Para se ter exorcismos todos os dias

 Até libertar totalmente a imaginação,

 

 Cebes: Sócrates, e onde iremos obter

 Um forte exorcista para nos proteger

 Se vais abandonar a nossa orientação?
 

56. AS CARACTERÍSTICAS DO EXORCISTA

 

 

 Sócrates: Cebes, a Grécia já é vasta

 E, nela, não faltarão homens capazes

 Porém também verás ideologias castas

 Em nações bárbaras que forem audazes,

 

 Dirigi a vossa busca entre os homens

 E não poupeis nem bens e nem o labor,

 Para achar o exorcista e suas ordens

 Com noção de que nada tem mais valor,

 

 Mas antes de sairdes a buscar a esmo,

 Procureis com noção entre vós mesmos,

 Porque muitos já se notam melhorados,

  

 Exorcista para afastar males mentais

 Para não por o mundo acima de ideais,

 Entre vós mesmos pode ser encontrado!

57. A IMPORTÂNCIA DAS VIRTUDES

 

 

 Cebes: o que poderá ter decomposição?

 Que coisas deverão temer este estado?

 Para o que é viável esta modificação?

 O corpo e a alma serão transformados?

 

 Há uma coisa composta por associação

 Lendo Anaxágoras e Empédocles também,

 Há a não composta que, em outra ação,

 Escapa de grave decomposição no alem,

 

 Os homens que se conservam imutáveis

 Não sofrem decomposições lamentáveis

 E não decompõem o valor do bom ideal,

 

 Já os homens que nunca são os mesmos,

 Cujas virtudes se desenvolvem a esmo,

 Vêem o ideal ser decomposto no final.

58. AS DÚVIDAS DO QUOTIDIANO

 

 

 Cebes: pelo seu imo, cuja existência

 Já falamos em nossos questionamentos,

 Mudar-se-ia o ideal com sua essência

 E até aceitaria ter desenvolvimentos?

 

 Acaso uma das realidades verdadeiras

 Cujo modo é em si, com sua perfeição,

 Com a sua imutabilidade alvissareira,

 Não admite Jamais qualquer alteração?

 

 Homens e seres que estimulam a visão,

 Que se unem aos ideais de inspiração

 E seguem seus âmagos correspondentes,

 

 A uns se podem perceber por sentidos,

 A outros, por pensamentos refletidos

 Mesmo sendo invisíveis completamente?
 

59. VÍNCULO TRANSCENDENTAL E MATERIAL

 

 

 Cebes: há dons invisíveis e visíveis,

 Os invisíveis conservam a identidade,

 Correspondendo a valores previsíveis,

 Os visíveis mudam-se com intensidade,

 

 Sócrates: nós possuímos dois valores,

 Um é espiritual e o outro é corporal,

 O corpo se mostra em visíveis teores

 E a alma tem sua sintonia espiritual,

 

 A alma possui vínculo transcendental,

 O corpo tem ligação num elo material,

 E a vida se manifesta por associação,

 

 Se a alma fraqueja, seu corpo influi,

 Se a alma se impõe, seu corpo evolui

 E ela sintoniza o ideal por evolução.

60. AVERIGUAÇÃO DO OCASIONAL E DO IDEAL

 

 

 Sócrates: a alma usa um elo corporal

 Para se posicionar com seus sentidos,

 Usando elo táctil, auditivo e visual

 Para que o visível seja compreendido,

 

 Assim seu corpo se torna instrumento

 Com o qual se interpreta um ambiente,

 E a alma projeta o seu discernimento

 Envolvendo homens e formas aparentes,

 

 A alma passa a ter noção inconstante

 Como se estivesse bêbada e vacilante

 Tentando averiguar o que é ocasional,

 

 Mas vê os valores com real percepção

 Quando se direciona para a perfeição

 Por sua semelhança com o que é ideal.

61. ALMA E CORPO EM ASSOCIAÇÃO - I

 

 

 Sócrates: a alma traz sua identidade

 Em íntimo elo com o seu conhecimento,

 Este estado de alma em autenticidade

 Não se traduz como dom do pensamento?

 

 A alma, pois, guarda mais semelhança

 Com os dons que não sofrem alteração,

 Enquanto o corpo sofre suas mudanças

 Ou se caracteriza pela transformação,

 

 Quando alma e corpo estão em ligação

 A alma assume o controle e a direção,

 E o corpo se restringe em obediência,

 

 O corpo representa um legado genuíno

 E a alma representa o vínculo divino

 Que controla a vida com inteligência.
 

62. ALMA E CORPO EM ASSOCIAÇÃO - II

 

 

 Sócrates: a alma tem vínculo imortal

 E é dotada com a força do pensamento,

 Que é indissolúvel e tem valor ideal

 Com a mesma feição ao longo do tempo,

 

 O corpo, pelo contrário, já é mortal,

 Multiforme e carente de inteligência,

 E mostrará uma decomposição no final,

 Quando não puder manter a existência,

 

 O que convém ao corpo é a dissolução

 E um tempo se encarrega da alteração,

 Pois o seu propósito é disciplinador,

 

 E o que convém à alma como qualidade

 É a mais relevante indissolubilidade

 Para evoluir com um espiritual valor.

63. ALMA E CORPO EM SEPARAÇÃO - I

 

 

 Sócrates: pode-se fazer uma reflexão

 Depois da morte de um corpo material

 A parte visível se mantém com coesão

 Por um período que ainda é adicional,

 

 O cadáver sofrerá ação de dissolução

 Mas ela não acontecerá imediatamente,

 O processo poderá ter grande duração

 Sobretudo se tinha viço inicialmente,

 

 Há a redução como técnica artificial,

 Ou as múmias como no Egito é natural

 E assim o corpo dura um tempo a mais,

 

 E mesmo nos episódios de putrefações

 Certas parcelas como ossos e tendões

 Poderão até sugerir que são imortais.

64. ALMA E CORPO EM SEPARAÇÃO - II

 

 

 Sócrates: a alma é o que é invisível

 E irá ao páramo que lhe é semelhante,

 Até um local de beatitude compatível

 Com as suas ações mais dignificantes,

 

 Vai ao bom Deus repleto de sabedoria,

 Aonde a minha também deve se dirigir,

 Se autorizar o nosso Deus de bonomia,

 Depois que a morte a permitir partir,

 

 Para o vulgo, após o corpo se anular,

 Uma alma também deveria se aniquilar

 No instante de sua separação natural,

 

 Mas o que se passa é bem o contrário,

 Caro Cebes e caro Símias dignitários,

 Porque a alma irá para o plano ideal.

65. ALMA E CORPO EM SEPARAÇÃO - III

 

 

 Sócrates: suponhamos que haja pureza

 Na alma que se separa do corpo enfim,

 Dele, a alma nada levará com certeza,

 Já que ela o evitou do começo ao fim,

 

 Ela refletiu-se a si mesma com razão

 Concentrando-se em si mesma pelo dom,

 A filosofia promoveu sua purificação

 E o ato de morrer vem como tempo bom,

 

 Assim, o cultivo diário da filosofia

 Ajuda o corpo a morrer com sabedoria,

 Libertando a alma para o plano ideal,

 

 A alma vai até o que lhe é plausível,

 Ela se dirige para o que é invisível,

 Para o que é sábio, divino e imortal.
 

66. IDEALISTAS VERSUS MATERIALISTAS - I

 

 

 Sócrates: a alma assimila felicidade,

 Onde distúrbios, querelas e terrores

 Já não marcam cruelmente a realidade

 Como quando existiam humanos valores,

 

 Os problemas humanos cessam sua ação

 E a alma passa a viver com liberdade,

 Na companhia dos deuses de perfeição

 O resto de sua vida, pela eternidade,

 

 Pode ocorrer também o fato contrário,

 Com a alma em procedimento temerário,

 Ligando-se ao corpo em rude confusão,

 

 A alma fica com um juízo enfeitiçado

 Pelos desejos e prazeres equivocados,

 Sentindo como real o que é só ilusão.

67. IDEALISTAS VERSUS MATERIALISTAS - II

 

 Sócrates: parece sempre real a noção

 De ver, comer, beber, sentir e tocar,

 De se entregar aos ditames da paixão

 E depois ao ódio, quando tudo falhar,

 

 Habitualmente uma alma vê com receio,

 Ou encara como tenebroso o invisível,

 Para a filosofia ele é como o esteio

 Que traz, ao imo, um dom inteligível,

 

 Se este estado continua no dia a dia,

 Demonstrando rude falta de sabedoria,

 É porque o corpo turvou toda a razão,

 

 Pensas que uma alma tão inconsciente

 Possa existir em si mesma plenamente

 Sem turvar nocivamente sua percepção?

68. IDEALISTAS VERSUS MATERIALISTAS - III

 

 Sócrates: a alma que vive o corporal

 E passa a ter uma real familiaridade

 Com esta existência na vida material,

 Estabelece dinâmica de reciprocidade,

 

 A alma tem o corpo como elo de união,

 Tornando-se prisioneira gradualmente,

 Buscando até mesmo uma multiplicação

 Das ocasiões de contatos envolventes,

 

 A alma se torna mais densa e visível

 Uma vez que é seu conteúdo plausível

 E única forma aparente de existência,

 

 Passa a ter o medo da vida invisível

 Pois sobreviver lá parece impossível

 E o corpo é o vínculo de dependência.
 

69. OS DESTINOS NO MUNDO ESPIRITUAL - I

 

 

 Sócrates: o medo que a alma rude tem

 Arrasta-a para a parte que é visível,

 Ela ronda as sepulturas em vai e vem

 Como um espectro incrível e horrível,

 

 Ronda monumentos funerários do local

 Transformando-se em espectro sombrio,

 Já que obteve uma libertação anormal

 Num estado de impureza e de desvario,

 

 Estas almas não são de bons cidadãos,

 São as dos maus e de valores malsãos

 Que agora estão destinadas a vaguear,

 

 Caminham com comportamento dissoluto

 Até identificarem análogos atributos

 Com os quais, então, vão se associar.

70. OS DESTINOS NO MUNDO ESPIRITUAL - II

 

 Sócrates: as almas terão os destinos

 Correspondentes às mesmas atividades

 Que desenvolveram de um modo genuíno

 Enquanto viveram suas personalidades,

 

 Parecerão asnos ou animais similares

 Pela luxúria, bebedeira e voracidade,

 Ou lobos com suas feições peculiares

 Pela injustiça, tirania e rapacidade,

 

 As muito felizes viverão como amigas,

 Tais como abelhas, vespas e formigas

 Em coletividades cívicas de harmonia,

 

 A espécie divina terá exclusividades

 Para quem filosofou com elasticidade,

 É só para reais amantes da sabedoria.

71. O CAMINHO DE EVOLUÇÃO DO FILÓSOFO

 

 

 Em Fédon, Platão vê a socrática ação:

 Os motivos que enaltecem a filosofia

 Continuam bem afastados, sem exceção,

 Dos desejos carnais em rude sintonia,

 

 E mesmo com a perda de um patrimônio

 A pobreza não poderá infundir o medo,

 Mesmo sem honrarias e sem matrimônio

 O filósofo vê a sua força em segredo,

 

 O homem que se preocupa com sua alma

 Vive sem prazeres ímpios e com calma

 Diferente dos que não sabem aonde ir,

 

 Não anda em rota inversa à sabedoria,

 Liberta e purifica a própria energia

 E pensa de modo constante em evoluir.
 

72. FILOSOFIA VERSUS PAIXÕES CORPORAIS

 

 

 

 Sócrates continua sua rara exposição:

 Quando a alma se associa à filosofia

 Liberta-se de correntes da perversão

 Que prendiam o corpo à rude anomalia,

 

 O corpo era, para a alma, uma prisão

 De onde deveria enxergar a realidade

 Submersa em cegueira e sem percepção,

 Ignorando suas reais potencialidades,

 

 O surpreendente neste encarceramento

 É que o desejo traz o aprisionamento,

 A própria alma aperta suas correntes,

 

 A filosofia entra com as elucidações,

 Ensinando as suas libertárias razões

 Para que ela se liberte naturalmente.

73. SABER INTERPRETAR AS DIVERSAS ILUSÕES

 

 

 Sócrates continua seu esclarecimento:

 A ilusão se faz através dos sentidos,

 Pela visão, chega o seu encantamento,

 Por outros sentidos ou pelos ouvidos,

  

 Assim, deve-se livrar destas ilusões

 Se não existir imperiosa necessidade,

 E considere suas próprias impressões

 Para se livrar com mais naturalidade,

 

 As coisas não devem sofrer avaliação

 De um intermediário com a sua ilusão,

 Pois refletirão sua superficialidade,

 

 Uma verdade vem do mundo inteligível

 Que ao mesmo tempo ainda é invisível,

 Mas é a essência luminosa da verdade.

74. OS PERIGOS DOS PRAZERES E DOS SOFRIMENTOS

 

 

 Em Fédon, Platão continua a escrever

 O que Sócrates disse como orientador:

 Contra a liberdade que se pode obter

 O filósofo sabe que não deve se opor,

 

 O filósofo se distancia dos prazeres

 Assim como dos afetos e dos terrores,

 Pois as emoções afetam seus afazeres

 E também comprometem os seus valores,

 

 Todo prazer e também todo sofrimento

 Trazem um cravo em cada envolvimento

 Que pregam a alma na feição corporal,

 

 E o aspecto material julga a verdade

 Conforme as feições da sensibilidade

 Que distanciam a alma do valor ideal.
 

75. O CANTO DO CISNE COMO DESPEDIDA

 

 

 Sócrates pediu a Símias um argumento,

 Símias disse que estava sem suportes,

 Pois respeitava muito seu sofrimento

 Pelo fato de estar próxima sua morte,

 

 Ele disse: a tristeza não é um senão,

 Eu não me considero menos capacitado

 Do que cisnes na ação da adivinhação

 No tempo de passar para o outro lado,

 

 Quando a hora da morte está presente

 O canto de cisnes se torna freqüente

 Tendo mais beleza e com mais alegria,

 

 Nenhuma ave canta quando está ferida

 O cisne canta, pois receberá guarida

 No território da verdadeira harmonia.

76. SÓCRATES COMPARA SUA MISSÃO COM O CISNE

 

 Sócrates segue com o seu aclaramento:

 Porém os homens, com o medo da morte,

 Caluniam os cisnes e seu canto bento

 Contando que é pela dor de sua sorte,

 

 Aves não cantam de fome, frio ou dor,

 Nem mesmo um rouxinol ou a andorinha,

 Cujos cantos soam com dolorido vigor

 Não se vê o fato nem nas entrelinhas,

 

 O canto de cisnes alude a outro pólo

 Já que são as aves sagradas de Apolo

 A nos mostrar um sagrado referencial,

 

 A minha missão é a mesma destas aves

 No momento grave encontra-se a chave

 Para a harmonia que há no lado ideal.

77. Pergunta sobre a lira e as cordas

 

 

 Símias expõe a Sócrates um argumento:

 A lira e as cordas produzem harmonia,

 Harmonia tem invisível arrebatamento,

 Lira e cordas têm visível fisionomia,

 

 E se lira e cordas forem danificadas

 Como poderia sua harmonia sobreviver?

 A real harmonia estaria desintegrada

 Antes do que foi visível desaparecer?

 

 Um corpo é semelhante ao instrumento

 E sem a alma como harmonia no evento

 Seu corpo ainda mantém certo suporte,

 

 Assim, a alma com seu elo particular

 Deve ser destruída em primeiro lugar

 Quando há o que denominamos de morte.
 

78. Resposta sobre a lira e as cordas

 

 

 Sócrates respondeu ao homem de Tebas:

 Oh Símias, deverias mudar de opinião,

 Pois simbolizaria uma grotesca queda

 Se a alma fosse só harmonia em fusão,

 

 A lira e as cordas de um instrumento

 Simbolizam a harmonia pela sincronia,

 Mas se a alma é boa ou má num evento

 Não depende de sua corporal sintonia,

 

 Homero apresenta Ulisses em aventura

 Dizendo: suporta coração sem ruptura,

 Já suportaste mazelas mais concretas,

 

 Logo, meu prezado amigo de filosofia,

 Se a alma fosse uma simples harmonia

 Nós estaríamos contra o divino poeta.

79. Durabilidade do corpo e da alma

 

 

 Cebes expõe a Sócrates sua impressão:

 Uma alma é mais durável que um corpo,

 Na morte, a alma parte com superação,

 Já o corpo se desfaz depois de morto,

 

 Quem poderá supor pelo discernimento

 Que uma alma em uma de suas partidas,

 Depois de seus múltiplos nascimentos,

 Não acabe sendo plenamente destruída?

 

 Na morte, o homem não vai se acalmar,

 A menos que ele seja capaz de provar

 Que a alma é imortal definitivamente,

 

 Se assim não for, quem já vai morrer,

 No momento da separação deverá temer

 Que a alma seja destruída totalmente.

80. O ímpar jamais será par

 

 

 Sócrates disse a Cebes com sua noção:

 Uma alma sempre trará um dom de vida,

 E jamais será morte em contraposição,

 E cada qual assim mesmo se consolida,

 

 O que torna o corpo quente é o calor,

 O que faz um corpo doente é a doença,

 Em um corpo uma vida só vai se impor

 Se, nele, a alma marcar sua presença,

 

 O que é ímpar assim vai se conservar

 Porque o que é ímpar jamais será par,

 Cada qual se mantém do modo original,

 

 O que rejeita o injusto e inarmônico

 Permanece tal como justo e harmônico,

 E alma não admite a morte, é imortal.

 

81. A moral como REFERENCIAL

 

 

 

 Sócrates disse com seu discernimento:

 E se admiravelmente a alma é imortal,

 Cumpre zelar por seu desenvolvimento

 No tempo presente e pelo tempo total,

 

 Quando a morte corporal é confirmada

 Se a alma foi um veículo de maldades,

 A fuga que viabilizaria sua escapada

 Passa a não haver como possibilidade,

 

 No Hades, a alma só terá a sua moral,

 Curiosamente o que lhe é prejudicial

 Em função das ações do comportamento,

 

 O mesmo gênio que está a nos nortear,

 Porá cada morto em determinado lugar

 Para que seja submetido a julgamento.

82. MUITOS CAMINHOS PARA A EVOLUÇÃO

 

 

 

 Depois do julgamento ser pronunciado

 Tem-se a sentença pelo comportamento,

 Recebem o merecido em local adequado

 E voltam para cá após bastante tempo,

 

 Caminhos que levam à vida espiritual

 Podem ser muitos e bastante variados,

 Pois se só houvesse uma via para tal

 Não haveriam guias tão diferenciados,

 

 O caminho tem voltas e encruzilhadas

 A prova são religiões diversificadas

 Passando os seus trajetos escolhidos,

 

 A alma ordenada acompanha o seu guia,

 E a alma teimosa permanece à revelia

 Ao redor do cadáver agora apodrecido.

83. A IGNORÂNCIA E AS VIRTUDES

 

 

 

 A alma mais obediente segue seu guia

 Já a alma que se agarra ao seu corpo

 Fica ao redor do cadáver em anomalia

 E ainda perto de monumentos ao morto,

 

 Enfim a alma chega ao seu julgamento

 Outras se afastam dela imediatamente,

 Pois reflete o erro do comportamento

 Assim como matar alguém injustamente,

 

 Ninguém mesmo quer guiar sua conduta

 Ela permanece em ignorância absoluta

 Mas fica numa residência conveniente,

 

 A alma que teve virtudes e sabedoria

 Faz amizade com companheiros e guias

 E fica numa residência bem comovente.

 

84. O ABISMO CHAMADO TÁRTARO - I

 

 

 Entre fundos abismos que há na terra

 Existe um que tem maior profundidade,

 Atravessa a terra e então se encerra

 Englobando toda a interna localidade,

 

 Homero e outros poetas em descrições

 Chamam de tártaro este abismo citado,

 É o abismo de profundas localizações

 E sob a funda terra ele está situado,

 

 Muitos rios vão do tártaro para além,

 E eles retornam a este abismo também,

 Mas o rio chamado oceano é o maioral,

 

 Num sentido oposto corre o Aqueronte

 Vai entre desertos, abismos e montes

 E desemboca no lago Aquerúsia afinal.

85. O ABISMO CHAMADO TÁRTARO - II

 

 

 Sócrates: o motivo pelo qual os rios

 vão ao tártaro e dele fluem de volta

 é que a água que entra em seu desvio

 não vê fundo e nem base na viravolta,

 

 há uma ação de oscilação e ondulação

 que a faz subir e descer normalmente,

 o ar e o sopro sofrem a mesma reação

 para um e para outro lado pertinente,

 

 este movimento lembra uma respiração

 com inspiração e ainda com expiração

 produzidas numa incessante seqüência,

 

 o sopro que avança entrando e saindo

 gera, nos líquidos que vão emergindo,

 ventos de uma irresistível violência.

86. OS RIOS QUE VÃO AO TÁRTARO

 

 

 Ao Aquerúsia vão as almas dos mortos,

 Ficam ali durante o tempo condizente,

 E depois elas receberão novos corpos

 A engendrar os seres vivos novamente,

 

 Um terceiro rio vem entre os citados

 E desemboca onde arde um fogo imenso,

 Fervendo com água e barro associados

 A desaguar no tártaro como rio denso,

 

 Este rio é chamado de Periflegetonte

 E um quarto rio surge em outra fonte,

 O Estígio, que corre em área sombria,

 

 Suas águas têm temíveis propriedades

 Chega ao tártaro em outra localidade

 E é denominado de Cocito pela poesia.

 

87. A DINÂMICA DOS RIOS - I

 

 

 Cocito é o rio das queixas pungentes

 Ele é um dos mais fabulosos do Hades,

 Nele e nos outros citados juntamente

 As almas sofrem por suas atrocidades,

 

 Os mortos recém chegados neste local

 São julgados por uma justiça valiosa,

 Tanto os que cultivaram apenas o mal

 Quanto os que tiveram feição piedosa,

 

 Muitas almas vão até o rio Aqueronte

 Com qualquer embarcação que desponte

 E ao lago Aquerúsia para purificação,

 

 São purificadas pelas penas sofridas

 Ou aliviadas por recompensas obtidas

 De acordo com cada mérito em questão.

88.  A DINÂMICA DOS RIOS - II

 

 

 Os que apresentam erros reconhecidos,

 Mesmo sendo faltas que têm gravidade,

 Não deixam de ter lenitivo garantido

 Como no caso de ira e irritabilidade,

 

 Dos que tiveram a violência cometida

 Contra pai e mãe em ato de exaltação,

 E se arrependeram pelo resto da vida

 E se empenharam na boa transformação;

 

 Irão para o tártaro obrigatoriamente,

 Porém após um ano de dores pungentes

 Uma onda dali os arremessa para fora,

 

 Os assassinos vão ao Cocito defronte,

 O mal aos pais vai ao Periflegetonte,

 E se dirigem ao lago Aquerúsia agora.

89. SÚPLICAS PARA SE PASSAR AO LAGO AQUERÚSIA

 

 Os que vão ao Aquerúsia na seqüência

 Agora clamam e pedem em altos brados,

 São os que mataram sem a consciência

 Ou então violaram tal como alienados,

 

 Suplicam passagem do rio para o lago,

 Se conseguem ter seu pedido atendido,

 Deixam o rio dos sofrimentos aziagos

 E passam a ter senões mais comedidos,

 

 Outros vão ao rude tártaro novamente,

 Numa repetição sem tréguas clementes

 Até obterem o perdão de suas vítimas,

 

 Um dia eles passam para o outro lado,

 Para que enfim possam ser libertados

 Através das suas expiações legítimas.
 

90. O DESTINO DOS PIEDOSOS

 

 

 Aqueles cuja vida já foi reconhecida

 Pelo valor de piedade são libertados

 Das áreas de sofrimentos sem guarida

 Para as alturas em lares purificados,

 

 Vão à superfície da verdadeira terra

 Os que se purificaram pela filosofia,

 Passam a ter uma vida que se encerra

 Na sublimação plena de seu dia a dia,

 

 Agora alguns destes eminentes mortos

 Passam a viver mesmo sem seus corpos

 Por todo o tempo que traz a redenção,

 

 Passam a viver nos locais mais belos,

 Cujo cenário não tem nenhum paralelo,

 E assim torna-se difícil a descrição.

91. Ampliar virtudes e conhecimento

 

 

 Sócrates concluiu esta sua exposição:

 Fizemos por alto este esclarecimento,

 E temos que nos esforçar com devoção

 Para ampliar virtudes e conhecimento,

 

 Vasta a esperança e boa a recompensa

 Mas devemos guardar a prudente noção,

 Que mesmo se houver alguma diferença

 Nós devemos tomar bastante precaução,

 

 Se a alma é imortal ela é negligente

 É preciso coragem para mudar a mente

 Como fórmula mágica de transformação,

 

 Um homem que desprezou seus prazeres

 Para não malbaratar os seus afazeres

 Adquire méritos na senda da evolução.

92. temperança, CORAGEM, LIBERDADE, JUSTIÇA E VERDADE

 

 A alma, na procura pela sua evolução,

 Deve evitar adornos nocivos e falsos,

 E cultivar virtudes com fina atenção:

 Temperança para se afastar percalços,

 

 Coragem desenvolvida com consciência,

 Liberdade com muita responsabilidade,

 Justiça feita com retidão e decência

 E verdade por dedicação à humanidade,

 

 O homem deve ser atuante e confiante

 Para que, do Hades, ele siga adiante

 Conduzindo o destino com suas rédeas,

 

 Encerro aqui a descrição deste drama,

 O meu destino neste momento me chama,

 Assim como diria um ator de tragédia.
 

93. O BANHO ANTES DE SE TOMAR CICUTA

 

 

 Ainda dá tempo para um banho salutar

 Antes do veneno extirpar meu assunto,

 É melhor, pois este banho vai poupar

 O árduo trabalho de lavar um defunto,

 

 Depois de Sócrates expor sua opinião

 Criton falou: quais as recomendações

 Para com os filhos de sua edificação

 Ou até quanto a outras considerações,

 

 Sócrates disse: sem nenhuma novidade,

 Cada um deve viver com autenticidade

 Cultivando sempre o amor à sabedoria,

 

 Se um dia, não importa o que eu peça,

 Não quiserdes cumprir vossa promessa,

 Vosso compromisso de nada adiantaria.

94. DIFERENÇA ENTRE APARÊNCIA E ESSÊNCIA - I

 

 Criton disse: como quereis o enterro?

 Como quiserdes, se puderdes me reter,

 Respondeu com gracejo diante do erro

 Que paradoxalmente estava a perceber,

 

 Sócrates se virou para nós e relatou:

 Não há meio de fazer Criton entender

 Que é um erro achar que o que eu sou

 É igual ao cadáver que vai apodrecer,

 

 Eu sou aquele que aborda os assuntos,

 Mas nada mais poderia vir do defunto,

 Ele não sabe e nem sente o que sinto,

 

 Criton deseja saber como me enterrar,

 Mas assim que o veneno se manifestar

 Não estarei mais presente no recinto.

95. DIFERENÇA ENTRE APARÊNCIA E ESSÊNCIA - II

 

 Sócrates disse: eu irei à felicidade

 Que deverá ser a dos bem aventurados,

 Para Criton era mesmo só loquacidade,

 Ou afago para mim e meus apaniguados,

 

 Sede, pois, meus fiadores associados

 Em relação ao Criton ainda descrente,

 Para afirmar que ele está equivocado

 E morrer é o oposto do que ele sente,

 

 Para que quando meu corpo se queimar

 Ou até quem sabe o resolvam enterrar

 Não pense que sofro males inusitados;

 

 Vê Criton, a incorreção da linguagem

 Abre ensejo para diferente abordagem,

 Assim, faças o funeral do teu agrado.
 

96. A DESPEDIDA DE SEUS FAMILIARES

 

 

 

 Sócrates levantou-se e foi-se banhar

 Em outro compartimento do outro lado,

 Nós ficamos a conversar e a examinar

 Sobre tudo o que havia sido abordado:

 

 Entretanto ninguém pode nos consolar,

 A perda de nosso pai já se consolida,

 Verdadeiramente nós deveremos passar

 Como órfãos pelo resto de nossa vida;

 

 E trouxeram-lhe para um último aceno

 Um filho maior e dois ainda pequenos

 E mulheres que cooperavam em seu lar,

 

 Trocou com eles suas últimas emoções,

 Ensinando-lhes algumas considerações

 E enfim retornou para nos acompanhar.

97. O CARCEREIRO (SERVIDOR DOS ONZE) - I

 

 

 O sol já estava perto de se recolher,

 Sócrates havia ficado bastante tempo

 Com os familiares que vieram lhe ver,

 Então ele retornou ao nosso aposento,

 

 O “servidor dos onze” se identificou

 E disse: não me dareis a mesma razão

 De queixa que cada qual já encontrou

 Em conseqüência de minha rude função,

 

 Todos me cobrem de duras imprecações

 Quando lhes dou o veneno nas prisões

 Porque tal é a ordem dos magistrados,

 

 Sois o homem mais bondoso e generoso

 Daqueles que vi neste lugar doloroso,

 Com brandura em momento tão delicado.

98. O CARCEREIRO (SERVIDOR DOS ONZE) - II

 

 

 Sei que não sentirás ódio contra mim,

 Conheces bem os verdadeiros culpados,

 Sabes que eu vim comunicar o teu fim.

 Adeus! Procura suportar o comunicado.

 

 No mesmo momento ele pôs-se a chorar

 E retirou-se escondendo a fisionomia,

 Sócrates ergueu, para ele, seu olhar

 E comentou: portar-me-ei com bonomia;

 

 Voltando-se para nós disse: que raro,

 Este homem me deu lenitivos e amparo

 Enquanto aqui ele esteve a trabalhar,

 

 Sentimentos afloram como por encanto,

 Quanta generosidade há no seu pranto

 E na sua forma nobre de se comportar.
 

99. MOMENTOS ANTES DE SE TOMAR CICUTA - I

 

 

 Sócrates: busquem o veneno preparado

 E, se não está, que o preparem agora,

 Criton disse: não sejamos apressados

 O sol ilumina e ainda não foi embora,

 

 Ouvi dizer que outros beberam veneno

 Somente depois de passar muito tempo

 Que a intimação deu o seu rude aceno,

 Uns até se fartaram antes do momento,

 

 Sócrates considerou: é muito natural

 Que as pessoas que não possuem ideal

 Comportem-se de uma forma equivocada,

 

 Aceitar o sacrifício é ir ao paraíso

 E desejar esta vida é motivo de riso

 Se, dela, já não se espera mais nada.

100. MOMENTOS ANTES DE SE TOMAR CICUTA - II

 

 

 Sócrates disse: já falamos demasiado,

 Não te demores, traga o veneno letal,

 Criton pediu a homens ali associados

 E logo veio outro com a taça funeral,

 

 Sócrates disse: então, meu bom amigo,

 O que devo fazer após ser envenenado?

 Ele comentou: dar voltas pelo abrigo

 Até que os membros se tornem pesados,

 

 Na seqüência deve-se deitar no leito

 Até que o veneno encontre seu efeito,

 E lhe entregou a taça correspondente,

 

 Sócrates a empunhou tendo serenidade,

 Olhou a sua face com inflexibilidade,

 Pouco por baixo e perscrutadoramente.

101. MOMENTOS ANTES DE SE TOMAR CICUTA - III

 

 

 Sócrates indagou: é ou não permitido

 Fazer da bebida de transmutabilidade

 Um ritual religioso algo enternecido

 Assim como uma libação às divindades?

 

 E ele respondeu: Sócrates, eu só sei

 Que maceramos a cicuta em quantidade,

 Tal como é preconizado por nossa lei

 Para produzir o efeito de letalidade,

 

 Sócrates disse: desejo ter permissão

 Para dirigir aos deuses minha oração

 Por sucesso na mudança de residência,

 

 Passarei daqui para o lado mais além,

 Faço minha prece para o ideal do bem

 Para sintonizar a meta de referência.

 

102. INGERINDO O VENENO CHAMADO CICUTA

 

 

 
 Sócrates, sem sobressaltos aparentes,

 Sem dar qualquer mostra de desagrado,

 Virou a taça que estava à sua frente

 E ingeriu todo o veneno ali colocado,

 

 Nosso pranto ainda estava controlado

 Mas quando vimos que já havia bebido,

 A certeza trouxe um choro desatinado

 Perante a mente que havíamos perdido,

 

 As lágrimas jorravam com intensidade,

 Pranteávamos só a nossa infelicidade

 Porque Sócrates não possuía tristeza,

 

 Seus soluços não podiam se controlar

 E Criton se levantou para se afastar

 E a fragilidade contrastou a firmeza.
 

103. MOMENTOS APÓS INGERIR A CICUTA
- I

 

 

 Apolodoro, que não cessava de chorar,

 Quando viu o veneno letal ser bebido,

 Com dor e com cólera pôs-se a gritar

 E todos nos sentimos muito comovidos,

 

 Sócrates indagou: que estais fazendo?

 Que gente de conduta incompreensível,

 Dispensei todas as mulheres prevendo

 Que evitaríamos este pranto horrível;

 

 Ensinaram-me, em relação ao proceder,

 Que é com devoção que se deve morrer,

 Assim, acalmai-vos, sejais coerentes!

 

 Ao ouvir esta linguagem de exortação,

 Ficamos envergonhados pela exaltação

 E contivemos as lágrimas deprimentes.

104. MOMENTOS APÓS INGERIR A CICUTA
 - II

 

 

 Sócrates andou pelo quarto tranqüilo,

 Até sentir suas pernas muito pesadas,

 Deitou-se calmo, como era seu estilo,

 Para que a droga fosse bem espalhada,

 

 A cicuta foi agindo progressivamente

 Anestesiando seus membros inferiores,

 E uma dormência se elevou lentamente

 Diminuindo os seus corpóreos vigores,

 

 Sócrates já estava muito rijo e frio,

 Mas neste desafio manteve seu feitio

 E as últimas palavras ele pôde falar,

 

 Ironicamente deu um galo a Esculápio,

 E após morreu este homem muito sábio

 Que governantes não puderam suportar.